Aulas e cachorros

Já são mais de quinze anos como professor. Me impressiono um pouco ao falar esse número, porque isso significa que por algum buraco das minhas mãos escorreram quinze anos de maneira irrecuperável. Porém, é um pouco aquilo que dizem (se é que dizem…): não é só tempo perdido, é aprendizado. A gente vai vivendo e vai aprendendo a viver, no durante. Por isso a gente acaba errando tanto. De tanto querer acertar. Na verdade, a gente “quer-tentando“. Vive em ato, vai vivendo, tenta acertar e quer acertar; mas às vezes – muitas vezes – erra querendo, na tentativa. Vai ver é aí que a gente se encontra, como “a gente”, esse coletivo inexistente. Mas não era sobre isso que eu queria escrever.

Já são mais de quinze anos como professor. Comecei em 2004, no segundo ano da minha graduação e não parei mais. Já trabalhei em mais de dez escolas diferentes, em cinco cidades diferentes. Não saberia fazer a conta de quantas pessoas já estudaram comigo. Muita gente. Não é possível lembrar de todos e não são raras as vezes em que me peguei na fila do supermercado, um saco de pão em uma mão, uma Coca-Cola na outra, pingando no chão de tão gelada, e minha cara certamente contorcida tentando lembrar o nome, a sala, o ano, alguma informação daquela pessoa parada na minha frente, esperando de mim alguma reação depois de dizer algo como “E aí, Thiagão! Lembra de mim?“. Não há injustiça maior com um professor do que essa pergunta. Os ex-alunos nunca entendem, no entanto. Sempre parecem ficar bastante desapontados quando eu erro o nome, o ano, a sala, a escola… Nunca é por mal. Muita gente.

Essa situação não deve acontecer em cidades maiores. A não ser que você seja professor na escola que fica no bairro em que você mora, a chance de encontrar com ex-alunos depois de eles terem se formado deve ser bem baixa. E mesmo morando no bairro da escola, rever os alunos não é garantido, porque eles próprios podem morar longe. Minha mãe é professora como eu e durante muitos anos trabalhou numa escola muito perto da nossa casa em São Paulo. Na confusão que era aquela cidade nos anos 80 e 90, minha mãe escapava um pouco disso e ia à pé pro trabalho. Ela lecionou durante anos no Faggioni, uma escola estadual gigantesca em São Miguel Paulista, bem perto de onde morávamos. Milhares de pessoas, certamente. Não me lembro de ela falar sobre encontros com ex-alunos na fila do sacolão, entre pés de alface. Alguns alunos só foram reencontrá-la quando ela começou a usar Facebook e essas coisas.

Divirjo. Fico aqui lembrando dos corredores daquela escola e de como eu gostava de andar por eles, à noite, tudo meio quieto, esperando pelo toque do sinal que indicava o fim do dia e a volta tranquila pra casa pela Avenida Imperador (“tranquila” pra padrões paulistanos, nos anos 1990). Vai ver são essas memórias afetivas, da escola como um lugar de conforto, do cheiro forte do álcool nos mimeógrafos da sala dos professores, o pote com as bolachas de Maizena, aquele ar seco porque saturado de giz das lousas, que me incentivou, algo inconscientemente, pra essa carreira.

E já são quinze anos – mais de quinze anos – como professor.

Essa semana uma ex-aluna veio me procurar. O nome dela veio escrito (o que ajuda muito), mas não tenho muita memória da sua sala, do ano em que estivemos juntos nas aulas, de quem eram seus colegas de turma. Me escreveu numa noite pedindo ajuda. Queria que eu preparasse aulas particulares pra ela, porque pretende prestar um concurso e a prova de Geografia é importante na composição da nota.

Eu nunca dei muitas aulas particulares. Uma ou duas vezes, apenas. Acho desconfortável e uma pressão muito grande sobre mim. Quem geralmente procura professor particular são mães de alunos que estão indo mal na escola e querem – quando não exigem – soluções rápidas e simples pra problemas complexos. Diante da dificuldade desses alunos, se eles fazem aula comigo e ainda assim, mesmo pagando professor particular!, vão mal nas provas, a culpa é toda minha. Eu que não soube como ensinar direito o conteúdo e por minha culpa deu tudo errado. De modo que, como não sei lidar bem com muita pressão e com cobranças indevidas, prefiro recusar. E como quem não é visto não é lembrado, hoje em dia quase nunca me pedem aulas particulares.

Mas essa ex-aluna pediu. Por estarmos no meio da pandemia logo pensei: “Pelo menos eu não teria que ir à casa dela ou ela vir à minha; é menos pior”. Fazer as aulas particulares pela internet seria menos pesado, pensei. Fiquei tentado a aceitar. Porém, logo ela me contou que o concurso que ela pretende prestar é para a Polícia Militar do Estado de São Paulo. Diz ela que quer trabalhar no canil da PMESP. Gosta de cachorros e vê na carreira policial um caminho razoável. A tentação de aceitar desapareceu. Foi substituída por uma dúvida sincera. Um questionamento interno de ordem ética.

Será que eu devo ajudar essa ex-aluna a realizar esse plano? A princípio, sim. Sou professor e vivo de transmitir aos outros o que aprendi primeiro.

Mas o plano dela envolve um alistamento a uma corporação militar criada com finalidades que abomino. A Polícia Militar existe como uma milícia em guerra contra o povo. Sobretudo contra o povo negro, o povo pobre e os trabalhadores. Eu, professor, já levei muita cacetada e já cheirei muito gás intoxicante (que não é só lacrimogêneo, é destruidor de vias respiratórias) em dispersão violenta, por parte da PMESP, de manifestações e atos de greve ao longo desses mais de quinze anos de profissão. Já olhei fundo nos olhos de vários PMs segundos antes de eles me baterem por estar ali defendendo a Educação. Não vi muita coisa que preste.

Será que eu devo, eticamente, em respeito à minha história, em consideração às coisas em que acredito, ajudar essa ex-aluna a ingressar nessa máquina de morte e violências que é a Polícia Militar do Estado de São Paulo? Decidi que não. E entendo que ela provavelmente vai entrar pra PM e que talvez ela só queira mesmo cuidar de cachorros, sem precisar bater em professores. Mas. Não com a minha ajuda.

Decisões. Essa nem foi tão difícil. No entanto, não disse nada disso pra ela. Disse apenas que por causa da pandemia a quantidade de trabalho tem sido muito grande (o que é verdadeiro) e que por isso (o que não é exatamente verdadeiro) eu não poderia dispensar tempo e atenção adequados às aulas que ela precisa. Não disse nada sobre a minha incapacidade ética de ajudá-la a entrar na PM porque o trabalho de um professor não é esse. A decisão obviamente é dela e eu não posso (nem quero) impedi-la. Posso – e efetivamente o faço – lamentar a decisão, mas não posso, pedagogicamente, condená-la.

E acho que essa é uma das coisas que aprendi a duras penas nesses mais de quinze anos de profissão: meus limites e essa noção mais firme da minha responsabilidade. Se eu aceitasse ministrar as aulas, seriam as melhores aulas que eu pudesse oferecer, sem medir qualquer esforço, tanto didático, quanto intelectual. Porque eu acredito que é preciso exercitar essa seriedade diante das tarefas que se apresentam. Todas. Vai dar aula? Faça com que seja a melhor aula possível sempre. (Cada palavra é importante: “melhor”, “possível” e “sempre”.) Mas eu não dormiria tranquilo sabendo que ela foi parar naquele lugar com a minha contribuição. E que se ela não vai se transformar em uma PM que espanca pessoas em manifestações e nas periferias, os cachorros com os quais ela vai lidar certamente participarão de ações horríveis e ela, lá no canil, gostando de cachorros e sendo uma ótima cuidadora, será mais um soldado que ajudará na permanência e na manutenção do funcionamento dessa instituição horrível.

Então, neguei. Justificadamente. Porém, ao mesmo tempo, a sensação de que errei ao negar aulas fica, gruda, feito um miasma, boiando gosmenta em volta de mim. Por isso, escrevo.

Meu juramento mais triste

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“E daí?”, foi o que respondeu o homem que você escolheu para ser o presidente do país, ao saber que um novo recorde de mortos pela Covid-19 foi atingido hoje. Ele ouviu o pedido do repórter para que comentasse o fato e respondeu “E daí?”. Você elegeu um homem que é incapaz de demonstrar pelo menos um mínimo decoro pelo cargo que momentaneamente ocupa, que dirá ser capaz de sentir pesar sincero pela morte de mais de 400 pessoas num único dia ou condolência pelas famílias que perderam pessoas queridas hoje. O homem em quem você votou faz pouco caso da morte de cinco mil pessoas em um mês e deve considerar que a sua morte é um evento desprezível, uma nota de fim, um detalhe insignificante diante do projeto de poder dele próprio. Qual é o projeto de poder do homem a quem você entregou o comando do cargo mais alto da República? É um reles projeto de poder pessoal, focado com todas as forças que o cargo lhe confere em livrar a si, aos seus filhos insanos e aos seus aliados nas milícias de policiais corruptos e criminosos do país (sobretudo do Rio de Janeiro) da Justiça e da prisão. O homem a quem você elegeu é um bandido barato, um coletor de propinas, um desqualificado de inteligência limítrofe, que serve aos interesses mais nojentos do varejo do crime que atormenta a vida de gente pobre Brasil à fora, com o apoio e a anuência do poder paralelo ao Estado, usando de violência e terror. Esse é o projeto que você mandou para Brasília e que agora, na cadeira da Presidência, responde “E daí?” ao saber da morte de mais de cinco mil pessoas a quem ele jurou proteger. Você elegeu um governo-para-a-morte. A morte na periferia das cidades brasileiras, a morte pela Covid-19, a morte indigna e irreconhecida, sem ar, sem apoio, sem sentimento. Você elegeu um psicopata.

Eu jamais esquecerei.

Eulogia ao Vento

O meu vizinho de frente morava numa das casas aparentemente mais antigas do bairro. O bairro vem se gentrificando lentamente. Começou como loteamento periférico, no tempo em que Guanabara era uma unidade federativa, e hoje, depois de muitas reformas, algumas casas já têm cara de casas de classe média. (Aqueles cubos insípidos que a classe média aprendeu a construir com programas de decoração americanos, sabe? Esses.) O meu vizinho morava em uma casa que ainda tem cara de casa de loteamento periférico.

Nunca conversei mais do que algumas frases com ele, normalmente sobre o tempo. Nos encontrávamos uns minutos antes de uma chuva forte, quando o vento começa a soprar e as nuvens ficam rodopiando em cima das nossas cabeças. Nos víamos, eu da janela, ele no quintal, e concordávamos sobre a probabilidade de chuva iminente. Na maioria das vezes, ficávamos apenas no aceno de cabeça ou num sinal de reconhecimento de presença com as mãos. Às vezes, eu o cumprimentava e ele não respondia. Especialmente quando estava acompanhado.

O meu vizinho de frente era um alcoólatra inveterado. De tal maneira inveterado que o modo como ele vencia a subida e a descida do morro, balançando pra lá e pra cá, ao sabor das brisas etílicas, nos obrigou a batizá-lo à revelia com o apelido “Windy“. Uma vez, sem querer (era quase sempre sem querer), vi ele entregando a um coletor de material reciclado sacolas quase infinitas de garrafinhas plásticas de Corote, aquela pinga assassina de tão barata. Já o tinha visto bêbado, sentado, com o olhar perdido pras nuvens, já o tinha visto cambaleando pra dentro de casa, já o tinha visto sendo amparado por amigos pra conseguir chegar em casa… Naquele dia, vendo as sacolas, muitas sacolas, senti uma pena profunda do “Windy“. Dali pra frente, qualquer outro sentimento meio que ficou substituído por uma consciência muito pesada da miséria humana que ele passou a personificar pra mim. Um sentimento talvez condescendente, mas do qual não consegui mais me livrar.

Por três vezes ele me pediu cigarros. Tinham acabado, era tarde, não tinha onde comprar – sabe como é. Ele sempre me chamava de “senhor”, ainda que fosse bem mais velho que eu. (Pelo menos parecia bem mais velho.) Na primeira vez, quando ainda fumávamos, arranjei uns três cigarros e ele voltou pra casa, agradecendo, balançando, conversando consigo mesmo e com a noite. Nas duas vezes seguintes, já não fumávamos, de modo que não conseguir dar os cigarros, ele agradeceu ambas as vezes, mas não parecia ter acreditado que tínhamos abandonado o vício. Olhava desconfiado. Levava uns segundos pra processar a informação que talvez lhe fizesse pouco sentido.

Meu vizinho de frente tinha amigos estranhos. Não quero soar preconceituoso. (Nunca quero.) Mas eles eram esquisitos porque pareciam lhe fazer mal. Chegavam no portão e gritavam por ele, que vinha abrir o cadeado, não se cumprimentavam e entravam rápido batendo a porta atrás de si. Silêncio por alguns minutos, muitas horas, mesmo dias. Saíam sem se despedir, ele abria o portão, eles seguiam, olhando obsessivamente sobre o ombro. Uma procissão de pessoas que vinham mais ou menos no mesmo horário, nos mesmos dias da semana. Com uma regularidade impressionante. Entravam – e era um silêncio impressionante. Quando vinham os amigos, meu vizinho de frente bebia mais do que o normal. Uma vez, vi ele e um amigo apontando pra lua e cantando, no quintal, felizes, muito bêbados.

Não estou tentando romantizar as cenas tristes que vi na casa do meu vizinho de frente. Vi brigas (uma vez até com facas nas mãos), ouvi gritos, vi ele apanhar, bater e ameaçar.

Há uns dias, porém, ele desapareceu. A casa ficou quieta. Nenhuma luz, nenhuma visita, nenhum amigo. O portão fechado. Meu vizinho de frente não estava mais ali. Eu não saberia dizer o que lhe aconteceu. Se se mudou, se foi expulso, se… Talvez meu vizinho de frente tenha morrido. De bebida ou de coisas mais horríveis. Eu não sei. Não sei se quero saber, pra dizer a verdade. Lido mal com a miséria humana e a crueldade de que somos capazes.

Por não saber, achei que deveria escrever uma eulogia do meu vizinho de frente, do “Windy“. Porque acredito que se o pior aconteceu, não vai ter quem escreva uma eulogia sobre ele; e me assusta demais a comprovação tão óbvia assim de que alguém pode simplesmente desaparecer do mundo sem deixar rastro de memória ou coisa sua. Fica a minha tentativa de não deixar que ele tenha existido na minha existência em vão.

Se ele voltar um dia, aviso.

Problemática

A pergunta que organiza meu pensamento em torno da relação entre a existência humana e a crise ambiental, em função de alterações no equilíbrio termodinâmico da Terra, é a que diz: “Que é ouvir o rio?”.

“Ouvir o rio” é a maneira pela qual, fenomenologicamente, dentro da geografia, pretendo refletir sobre o modo de existir humano que aparece cindido, na experiência na e com a Terra, entre os dois polos fundantes da modernidade (Latour, 1994): o polo da natureza – que deve, segundo a tradição científica moderna, ser explicada e controlada para não ser temida – e o polo da humanidade – a razão humana, que eu interpreto como colonizadora de outros modos de existência, de outros mundos, que procura dominar, inclusive tecnologicamente, aquilo que em alguma medida atrapalhe a consumação de seu destino.

Partindo da premissa de que a existência da humanidade moderna está cindida, “ouvir o rio” poderia ser “ouvir a montanha”, “falar ao céu”, “tatear a terra” – na medida em que nesse trabalho, a partir de tal premissa, procuro “geograficizar” a importante provocação de Walter Benjamin (1987) sobre a responsabilidade ético-epistemológica do historiador, qual seja, a de estar atento e saber identificar a história a partir da perspectiva dos vencidos, e não como comumente ocorre, a partir do ponto de vista dos vencedores.

Procuro, nessa tese, inverter o foco e subverter (ou ignorar) a ordem comum, não apenas como um exercício intelectual, mas como compromisso com a construção de “um outro fim de mundo” possível. Um compromisso ancorado, sobretudo, no que Löwy (2002) destaca em Benjamin (1987): um “pessimismo revolucionário”. Diferentemente de um otimismo inoperante, capaz de ignorar os sinais de derrocada iminente, ou de um niilismo atávico, que paralisa as ações, o pessimismo revolucionário entende logo cedo que as condições são desfavoráveis, mesmo caóticas, e que justamente por isso uma saída é agir. Porém, agir inteligentemente, de acordo com a expressão da realidade que se apresenta distintamente para vencedores e para vencidos.

O “rio” – que são, sobretudo, mas não exclusivamente, os rios do meu lugar: Camanducaia e Jaguari, Amparo e Pedreira, respectivamente – é o vencido. É importante notar que no mesmo instante em que escrevo a fórmula “O rio (…) é” novamente atualizo sua condição de vencido existencial. Ou seja, quando digo sobre o rio, quando digo (a ele) suas características, quando tecnicamente o classifico, o rio se reifica e sua existência passa à condição de colonizado. Colonizado pelo meu pensamento sobre o rio, sobre o seu sentido (para mim), sobre o seu significado (para mim). Desse acontecimento em diante, usar o rio, torná-lo útil à minha empresa sobre a Terra, seja para barrá-lo, retificá-lo, transpô-lo, secá-lo, enfim – são ações que “podem” acontecer, pois o rio já não existe para além de minha existência nem para além da maneira como o considero em função de minhas intenções: um instrumento, uma ferramenta, um apoio, um empecilho, um entrave, uma vantagem… logo, uma colônia.

O conjunto da sociedade chamamos a isso de progresso, desenvolvimento, avanço, engenharia… Mas no fundo, pouco importam os sinônimos usados, se todos querem dizer sobre nosso violento terrorismo existencial contra o rio.

“Ouvir o rio” é uma metáfora, que fica no lugar de dizer, propriamente, sobre como parte do esforço de produção do conhecimento geográfico é pensada a partir de apenas uma perspectiva, a partir das obras de uma agência, qual seja, a presença violenta de uma humanidade constituída a partir de ideais da modernidade. Uma humanidade definida na “etnografia dos brancos” de Davi Kopenawa & Bruce Albert (2015) como “o povo da mercadoria”. Uma humanidade, um modo de existir humano, dentro de um conjunto bastante maior e mais diverso de possibilidades – tanto humanas quanto não-humanas. Conjunto que, então, implica considerar a possibilidade – mais real quanto mais “aterrado” o pensamento[1] – de que o rio existe diversamente.

Nesse ponto da exposição, é preciso concordar com Guimarães Rosa (2009, p. 112), quando ele diz que “(…) o mundo do rio não é o mundo da ponte”: ambos correspondem a expressões de modos de existência diversos, que não necessariamente existem em “paz”. Mais ainda, é preciso aprofundar a constatação de que, de fato, há guerra entre os dois mundos (Latour, 2002):

“A Humanidade” foi uma imensa e feliz descoberta, e o foi a cada vez que era necessário (notadamente após a Segunda Guerra Mundial). Além disso, se todos os membros das Nações Unidas se sentissem satisfeitos de pertencer “somente à comunidade humana”, se a linguagem comum utilizada na Unesco fosse suficiente para abranger todos os habitantes do planeta, a paz teria sempre reinado. Porém, essa paz não existe, o que revela o mal-estar dessa definição humanista de homem liberto com base em nossa concepção do que seja um acordo. (Latour, 2018, p. 9)

Uma guerra que ultimamente – no último século e meio, pelo menos – passou a ser travada entre o “mundo da ponte” (esse tipo colonizador e violento de humanidade) e algo contra o que esse primeiro combatente perde tremendamente em escala e capacidade de ação (ou de “mitigação”): a intrusão de Gaia (Stengers, 2015).

A intrusão de Gaia corresponde à entrada não esperada, não cogitada, não imaginada de reverberações extra-humanas no contexto das alterações das condições de existência (humana e não humana) na Terra. São reverberações que não vêm em busca de diálogo, que não compartilham, sequer, a mesma temporalidade dos humanos e seus projetos.

A concepção da “hipótese Gaia” aparece a partir do texto de Lovelock & Margulis (1974), no qual propõem a compreensão da Terra como um organismo vivo, cujo equilíbrio homeostático dependeria da inter-relação balanceada entre elementos geofísicos e geoquímicos, mais ou menos influenciados por elementos externos ao sistema. Em Stengers (2018), Gaia é a realização concreta e catastrófica do aspecto transcendente das existências que, em grande medida, o modo de relacionamento moderno com a Terra quis ver desaparecido. Porém, a presença ameaçadora da transcendência está aqui: na crise, no clima, no desequilíbrio, nos eventos extremos.

A intrusão de Gaia corresponde às agências que no contexto do debate científico – e, logo, do racionalismo humano moderno, colonizante – “não têm” (“ou não querem ter”) voz. Ao se tornarem presentes, no entanto, aparecem como um problema incômodo: “Devem ser ouvidos?”, e, em caso afirmativo, “Como ouvi-los?”.

Um problema que existe para “nós” (nessa existência humana cindida, apartados de outros modos de relacionamento com a Terra), que efetivamente o criamos: “Melancholia” (2011) não vem “de propósito”, “como um castigo”, “como uma expiação”, “como um fim” – apenas vem; é a realização da transcendência produzindo um fim de mundo, exibindo desesperadora indiferença.

O problema incômodo que temos diante de nós sugere que devemos considerar a proposição cosmopolítica (Stengers, 2018) como uma alternativa de pensamento. Essa proposição é uma crítica e um alerta à necessidade de superação da ideia de cosmopolitismo.

“Cosmopolita”, segundo a autora, seria a noção equivocada de que é possível a produção de um consenso, de um “mundo de tolerância”, onde as diferenças ficariam submetidas à ideia comum de um “mundo bom”, que existiria em um estado de paz perpétua. O equívoco residiria no fato de que tal noção desconsidera, ou abertamente ignora, outras possibilidades de existência que não necessariamente querem ser incluídas (mesmo que voluntariamente) em um projeto cosmopolita, de produção desse estado de paz tolerante das diferenças, por mais bem-intencionado que ele possa ser.

Na proposição cosmopolítica,

A presença do cosmos (…) resiste à tendência da política em conceber as trocas em um círculo exclusivamente humano. A presença do político (…) resiste à tendência do cosmos em conceber uma lista finita de entidades que devem ser levadas em consideração. O cosmos previne o encerramento prematuro do político, assim como o político em relação ao cosmos (Latour, 2018, p. 6).

Fundamental na proposição cosmopolítica, para o meu problema, é o fato – ou a disposição – de ela estar atenta aos “murmúrios” das agências que não têm ou não querem ter voz, no momento em que “nós” nos julgamos capazes – ou autorizados, por exemplo a partir do conhecimento científico – a dizer sobre os outros, pelos outros e de propor, muitas vezes à revelia de outras posições, a produção do “bem comum” cosmopolita.

Nesse sentido, “ouvir o rio” é um exercício que exige um deslocamento de minha posição como pesquisador, na tentativa de considerar outras agências que talvez se relacionem de modo diverso com a Terra. Esforço que deve acontecer tendo como horizonte a produção de conhecimento geográfico no contexto da crise ambiental. Ao mesmo tempo, em certo sentido – ainda problemático no meu entendimento –, corresponderia a um exercício de vislumbrar sentidos de “re-espiritualização[2] (Kopenawa & Albert, 2015) e de “re-personalização[3] (Krenak, 2019) das demais coexistências, sobretudo aquelas que não compartilham nossa mesma humanidade.

O rio (Gaia, a Terra, os extra-humanos, as temporalidades e espacialidades diversas, as outras existências, os outros mundos…) tem a propriedade de, sem pedir licença e sem fazer grandes anúncios, engolir a modernidade – nem sempre metaforicamente. Justamente por isso, há uma “armadilha” que preciso evitar – como moderno, como “cientista”, como “ocidental”, como secular, como cético, etc.: ao querer ouvir o rio, posso terminar escutando a mim mesmo dizendo em nome do rio. Um exemplo bem-acabado da “boa vontade” e da “tolerância” cosmopolita.

Então, por agora, meu esforço vai na direção de pensar uma geografia pessimista revolucionária, cosmopoliticamente informada, fenomenologicamente interessada não em mim nem no rio, mas no encontro entre (“a ‘situacionalidade’ de”) o que eu tenho a “dizer” (sentir, pensar, devir, ser…) e o que o rio tem a “dizer”.

Desse modo, a questão talvez devesse ser metamorfoseada em “Que dizemos, no encontro, eu e rio?”, para que minha investigação procure pelo relacional entre (pelo menos) dois cosmos e duas políticas diversos.

Referências

  • BENJAMIN, Walter. Teses sobre o conceito da história, 1940. In: ______. Obras escolhidas. Vol. 1 – Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. (Trad. de Sérgio Paulo Rouanet.) São Paulo: Ed. Brasiliense, 1987, p. 222-232.
  • KOPENAWA, Davi & ALBERT, Bruce. A queda do céu. Palavras de um xamã yanomami. (Trad. de Beatriz Perrone-Moisés.) São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 768p.
  • KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 85p.
  • LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. Ensaio de antropologia simétrica. (Trad. de Carlos Irineu da Costa.) Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994. 152p. (Coleção TRANS)
  • ______. War of the Worlds: What about Peace? (Trad. de Charlotte Bigg.) Chicago: Prickly Paradigm Press, 2002. 29p.
  • ______. Qual cosmos, quais cosmopolíticas? Comentário sobre as propostas de paz de Ulrich Beck. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 68, p. 428-441, abr. 2018.
  • LOVELOCK, James E. & MARGULIS, Lynn. Atmospheric homeostasis by and for the biosphere: the gaia hypothesis. Tellus, v. XXVI, n. 1-2, p. 1-10, 1974.
  • LÖWY, Michael. A filosofia da história de Walter Benjamin. Revista Estudos Avançados, v. 16, n. 45, p. 199-206, 2002.
  • MELANCHOLIA. Direção: Lars von Trier. Produção: Meta Louise Foldager & Louise Vesth. Hvidovre, Dinamarca: Zentropa Entertainments, 2011. 01 DVD. (135 min.)
  • ROSA, João G. Orientação. In: ______. Tutameia (Terceiras estórias). 9ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2009, p. 111-113.
  • STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes. (Trad. de Eloisa Araújo.) São Paulo: Cosac Naify, 2015. 160p.
  • ______. A proposição cosmopolítica. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 69, p. 442-464, abr. 2018.

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[1] “Enquanto isso, a humanidade vai sendo descolada de uma maneira tão absoluta desse organismo que é a terra. Os únicos núcleos que ainda consideram que precisam ficar agarrados nessa terra são aqueles que ficaram meio esquecidos pelas bordas do planeta, nas margens dos rios, nas beiras dos oceanos, na África, na Ásia ou na América Latina. São caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes – a sub-humanidade. Porque tem uma humanidade, vamos dizer, mais bacana. E tem uma camada mais bruta, rústica, orgânica, uma sub-humanidade, uma gente que fica agarrada na terra. Parece que eles querem comer terra, mamar na terra, dormir deitados sobre a terra, envoltos na terra” (Krenak, 2019, p. 21-22 – o grifo é meu).

[2] Na desespiritualização do mundo (Kopenawa & Albert, 2015), a Terra desaparece como transcendência e toda ela se torna imanência. A Terra perde a possibilidade de ser personagem no roteiro cotidiano das nossas existências e, no extremo, ela se torna apenas problema – quando interfere – e/ou utilidade – quando é vista apenas como recurso.

[3] A despersonalização do mundo (Krenak, 2019) é o produto final almejado pelo cosmopolitismo: um mundo em que diferentes sujeitos (humanos e não humanos, modernos e não moderno) se tornam uma humanidade, um “mundo bom”, um mundo “em paz”, baseado na perspectiva da tolerância de uma humanidade às diferenças, que no entanto precisam estar submetidas e controladas – serem “exóticas”, “folclóricas” ou estar presas em zoológicos, por exemplo.

O Outro e a intencionalidade

Se o “multiculturalismo” ocidental é o relativismo como política pública, o perspectivismo xamânico ameríndio é o multinaturalismo como política cósmica.

O xamanismo é um modo de agir que implica um modo de conhecer, ou, antes, um certo ideal de conhecimento. Tal ideal é, sob vários aspectos, o oposto polar da epistemologia objetivista favorecida pela modernidade ocidental. Nesta última, a categoria do objeto fornece o telos: conhecer é objetivar; é poder distinguir no objeto o que lhe é intrínseco do que pertence ao sujeito cognoscente, e que, como tal, foi indevida e/ou inevitavelmente projetado no objeto. Conhecer, assim, é dessubjetivar, explicitar a parte do sujeito presente no objeto, de modo a reduzi-la a um mínimo ideal. Os sujeitos, tanto quanto os objetos, são vistos como resultantes de processos de objetivação; o sujeito se constitui ou reconhece a si mesmo nos objetos que produz, e se conhece objetivamente quando consegue se ver “de fora”, como um “isso”. Nosso jogo epistemológico se chama objetivação; o que não foi objetivado permanece irreal ou abstrato. A forma do Outro é a coisa.

O xamanismo ameríndio parece guiado pelo ideal inverso. Conhecer é personificar, tomar o ponto de vista daquilo que deve ser conhecido – daquilo, ou, antes, daquele; pois o conhecimento xamânico visa um “algo” que é um “alguém”, um outro sujeito ou agente. A forma do Outro é a pessoa.

[Viveiros de Castro, E. A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia: Eduardo Viveiros de Castro. São Paulo: Cosac Naify, 2002. p. 358.]

Minhas músicas

Depois de um ano e dois meses (comecei em outubro de 2017), hoje eu cheguei ao Zimbábue e terminei de reorganizar minha biblioteca de música.

Eu organizo minhas músicas pelos países de onde elas vêm, e por isso resolvi montar esse mapa, onde coloquei todos os artistas que tenho no arquivo. De jeito nenhum isso foi cansativo. Certamente é trabalho de algum transtorno. Com certeza não é o fim da jornada, porque no caminho, encontrei mais umas centenas de artistas pra pesquisar.

Música, pra mim, é uma possibilidade de encontro com o que é diferente. Quanto mais diferente, melhor. Eu quero mais é ouvir e não entender, porque música é sentir. Música é encontro com o indizível do mundo. Os lugares falam comigo quando ouço música de quem vem de lá.

Por enquanto, são 273 gêneros musicais diferentes, 605 artistas, 3289 álbuns, de 113 países diferentes. Um total, provisório, de 41406 músicas. 83% disso em MP3 320kbps e 16% em FLAC (Com algumas exceções, de coisas muito obscuras que mantive, mesmo se em qualidade ruim de áudio.) Tudo junto, são 427GB de arquivos. Se eu conseguisse ouvir tudo sem parar, seriam 15 semanas, 6 dias, 3 horas e 6 minutos de música.

Nada disso é meu. Tudo isso está absolutamente disponível a quem quiser e se interessar por músicas bonitas e estranhas desses lugares todos. Meu username no Soulseek é “aldurin” e eu não costumo negar downloads.

Meu pequeno tesouro.

músicas
As pastinhas da loucura.

As antigas portas

Já há muitos anos eu tenho essa imagem que me persegue, que me encanta e que me seduz – cidades que têm portas. Cidades muradas, antigas, projetadas para serem fortalezas disfarçadas de lugar de viver, onde o meio de entrada era (e ainda é, em alguma medida) passar pelos portões que se abriam na cortina defensiva.

Sempre que chego a alguma cidade no Brasil que tenha um portal, me impressiono. Portal de cidade no Brasil tem outra característica, outra função. Serve mais como um monumento dedicado a desejar boas-vindas a quem chega ou uma boa viagem a quem se vai. Não é a mesma função dos portões monumentais de cidades muito mais antigas que o próprio Brasil. Nessas cidades antigas, as portas não dão as boas-vindas, não convidam a entrar, não desejam boa sorte ou boa viagem a quem vai embora. Servem (ou serviram) para manter fora quem não deveria entrar. Ainda assim, passar por um portal numa cidade brasileira ainda tem sobre mim um efeito estranho, que me impressiona.

Fico imaginando, então, como deve ser passar por uma porta antiga, numa cidade antiga, temendo um pouco ter meu caminho barrado por soldados ou quem quer que fosse o responsável por permitir ou negar a entrada de alguém na cidade intramuros.

A imagem me seduz porque fico pensando como deve ser (ou ter sido) a vida numa cidade murada, fechada, protegida, trancada a chaves. Sua vida inteira dentro de uns poucos metros quadrados, uma sensação de proteção relativamente frágil, a linha dos muros separando a vida do caos, do medo, da guerra, da morte. Sair da cidade queria dizer, de fato, encontrar-se com a possibilidade da morte. Um cosmos particular atrás de cara muralha.

Penso que há aí uma metáfora a ser explorada. Um cosmos em cada cerca. Um mundo em cada muro. Uma internalidade segura, pacífica. Uma externalidade violenta, perigosa, incerta. Percebe a metáfora?

Ser-entre-as-portas. Estar-dentro. Não-estar-fora. Cada porta indicando início de um caminho. Daqui até lá, até o próximo muro, todo cuidado é pouco. Aqui dentro, se acalme, se ajeite, se encontre. Lá fora, não confie, não se distraia.

Hoje as portas, as antigas portas das antigas cidades, perderam um pouco o seu simbolismo e são, no mais das vezes, atrações para turistas incautos, cenários de fotos – sempre as mesmas fotos. Perderam um simbolismo, mas ganharam outros. As portas são testemunhas, marcas na paisagem urbana. Estão ali porque atraem turistas, mas estão também (talvez principalmente) porque ilustram a memória de tempos menos tranquilos.

Entre as Portas” é conforto, encontro, reunião, comunidade, proteção, início de caminho, chegada de viagem. É um ponto de vista. É uma perspectiva.

Nunca.

“Nunca fazer nada que o mestre mandar. Sempre desobedecer, nunca reverenciar.”

Que tudo recomece. Que o o fim seja início. Que o respeito seja a base. Que a indiferença definhe. Que o desprezo não floresça. Que a insurgência reverbere. Que não se abaixe a cabeça. Que se saiba, sempre, possível. Que o menosprezo se transforme em vento forte. Que a tristeza, ela, sempre ela, acompanhe de longe. Que a experiência, DE FATO, valha. Que ouçam. Que vejam. Que compreendam que não compreendem.

Nunca reverenciar. Nunca.

O Brasil é vermelho

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Percentual de domicílios particulares permanentes com banheiros. Fonte: INDE.

Eu queria muito deixar aqui uma informação na qual tropecei ainda agora, fuçando no site da Infraestrutura Nacional de Dados Espaciais (basicamente um lugar onde podemos buscar informações sobre o Brasil nos formatos necessários para produzir mapas temáticos): http://www.visualizador.inde.gov.br/.

Uma das camadas disponíveis dá um retrato por município (todos os municípios do país) da quantidade de domicílios que têm banheiro. Banheiro. Sabe? Banheiro. Eu tirei uma foto e ela tá em anexo ao “textão”.

Se ficar pequeno, adianto seu lado: tons de vermelho correspondem a MENOS de 11%. Ou seja: MENOS de 11% dos domicílios particulares permanentes naqueles municípios brasileiros têm BANHEIRO.

O Brasil é vermelho. VER-ME-LHO. 89% dos domicílios nesses municípios NÃO TÊM BANHEIRO.

Na bolha azul do mapa, São Paulo e redondezas (partes de Minas, do Rio, do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) — 75%. No “Sul Maravilha”, na maioria dos municípios, só dois terços dos domicílios têm banheiro.

OU SEJA: quando é bom, ainda é ruim.

Eu fiquei uns cinco minutos olhando pra essa imagem, sem saber como lidar com essa informação. Tive que chamar a Mariana — que também não soube lidar. TANTA COISA.

Não sei bem por quê, mas me lembrei do Karnal no programa da Fátima Bernardes hoje cedo. Todo polido, terno caro, num programa de televisão com a primeira-dama da Rede Globo, falando sobre “ser pai”, os desafios. Não importa o que ele tava dizendo. Tanto Karnal quanto Fátima Bernardes têm banheiro em casa. Eu tenho. E eu me preocupo com, sei lá, se eu vou ter dinheiro pra comprar canetas numa papelaria no fim do mês ou sobre a qualidade dos representantes políticos que temos eleito.

Na TV, no Facebook, no Twitter, no Whatsapp, todo mundo fala em nome do ou sobre o “povo brasileiro”. E as imagens de povo brasileiro são imagens de Copacabana, da Avenida Paulista, do Centro do Rio, QUANDO MUITO, de um “típico” e “exótico” nordestino, feliz, numa praia ou de um também “típico” e “exótico” caboclo amazônico, remando a canoa num igarapé. O “povo”.

O “povo” não tem BANHEIRO.

E a gente aqui muito teóricos, muito doutos, muito importantes, muito debatendo, muito ~vislumbrando possibilidades para as eleições de 2018~, muito “ai, que medo do Bolsonaro”.

Quando na verdade a gente devia fazer um mutirão de construção de banheiros.

À merda? Lá estamos.

Escrever

Escrever como um artesão. Burilar as palavras. Desenhar as letras, cuidando que a curvatura do a seja a mais gentil possível, que o corte no t não seja proibitivo, que o pingo do i seja de uma mililitragem exata — nem a mais, lhe pesando, pregando à linha, nem a menos, solto, desobrigado. (Os turcos escrevem em sua língua um i minúsculo sem pingo [ı] e um i maiúsculo com pingo [İ]; me parecem errados, impróprios, ainda que charmosos.)

Escrever como um trabalho árduo. Buscando pela forma da palavra no risco, na precisão da posição da letra. Também os sentidos, mas não apenas. Uma caligrafia à faca. Muito afiada, muito perigosa. Exata. Sem deixar espaço para excesso. Sem permitir que o texto escape às suas margens — contido no seu leito. Porém, escavar o canal, pensá-lo, testá-lo, fazê-lo, aos poucos, centímetro a centímetro. E então deixar que as palavras sejam água.

A metáfora e a metonímia. Água e texto. Margem, limite. Precisão, gentileza.

Escrever (porque é) preciso. Precisar o que é escrita. Lapidar a pedra bruta. Criar o caminho.